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VALENTINA BORNACINA: Roupa e Afeto

Me lembro de quando era criança e ficava horas com a minha avó vendo o guarda-roupa dela. Cada dia que passávamos sentadas no chão olhando a infinita coleção de casacos, calças e camisetas era um convite para um outro tempo, uma outra narrativa e -às vezes- uma história que tinha se perdido na memória com o passar dos anos.

 

O meu sonho era ficar com aquelas peças, para que algum dia pudesse ser a menina de vestido florido que conseguiu o emprego que tanto queria- assim como ela fez quando tinha a minha idade. No final das contas, não fiquei com nada extravagante dela, mas acabei ganhando um anel antigo e puído que me serviu perfeitamente. Faz quase oito anos que extorqui a minha avó e consegui o anel, que ainda uso diariamente. A peça não me lembra apenas dela e de suas histórias- que anos depois descobri que em sua maioria eram inventadas- mas também me traz um conforto, um certo carinho.


É engraçado como na correria do dia a dia e no sistema de alto consumo em que vivemos acabamos por esquecer que as roupas carregam um papel além do de cobrir nossos corpos para a sociedade. Esquecemos que elas carregam nossa história, nossa personalidade, que são um reflexo de quem queremos ser- e não apenas a manifestação de uma tendência passageira e duvidosa. Com a ascensão do Fast Fashion o consumo de roupas passou a ser automático, excessivo e no limite do desnecessário. A maioria das peças que temos em nosso guarda-roupa acabam por ser fruto de um desejo de compra momentâneo- inclusive, as “compras por impulso” são estudadas e estimuladas por parte das lojas.

 

Me sentindo incomodada com a quantidade de roupas sem sentido acumuladas no meu armário, busquei inspiração nas pessoas a minha volta e nas peças que elas consideram especiais- independente do motivo. As histórias mais interessantes você lê a seguir:

 

Nalu e seu uniforme:

“Estudei em um colégio internacional e super católico por 14 anos. O uniforme era saia, meia calça, gravata, blazer, suspensórios...toda a parafernália. Durante muito tempo eu não gostei, mas conforme fui crescendo e percebendo o quando eu amava o colégio e me sentia em casa. Mesmo depois de sair dele não consegui me desfazer das roupas. Porém, minha mãe doou o último blazer que eu ainda tinha guardado, esses dias. Minha irmã me acha uma acumuladora por isso, mas é super um apego emocional de verdade. Me lembra uma época ótima, com amigos ótimos, professores muito legais. Como o colégio era “pequeno” realmente era uma família. Os professores todos foram convidados para casamento dos meus pais. Eu vi o colégio sendo construído e aumentando aos poucos...sabe, muita coisa. Aí o uniforme me lembra disso tudo”

 

Bryan e seu moletom: 

“A peça que mais tenho carinho? Provavelmente é o blusão de lã que roubei do meu pai anos atrás! ele é grandão e quentinho que por si sós já são motivos pra eu amar uma peça. Mas o que eu mais gosto nele é o patch na altura do peito que diz "youth for animal rights". Meu pai teve esse blusão por anos, mas ele em havia lido o patch, nunca deu muita bola. Parece que ele estava lá esperando por mim, o filho vegetariano que anos mais tarde o usaria tanto que chega a ser feio. Usar ele carrega a mesma sensação de um abraço."

 

Tali e sua beca:

“Como qualquer formanda de pandemia, não tive direito à formatura dos sonhos. Mas estava decidida a me formar de beca. Triste, sim. Vestida inapropriadamente, Nunca! Consegui junto com alguns amigos uma veste digna de formanda para alugar. Meu pai, como sempre disposto e fanático por qualquer conquista minha, buscou a beca na loja assim que pedi. Com os olhos brilhando e muito orgulhoso, disse que aquele era um dos dias mais felizes da vida dele. Enquanto aparecia na tela da formatura online, fui até surpreendida com um banho de champanhe. O cheiro e o gosto da bebida foram os últimos que meus pais sentiram por um bom tempo. Depois de uma semana, eles foram contaminados pela Covid-19. Minha mãe, como sempre forte, teve sintomas como dor de cabeça e tosse. Já meu pai, que herda um histórico de tuberculose, precisou de muita fé para voltar a respirar. Por sorte, ciência e Deus (incluindo Santos, anjos, orixás e por aí vai), meu pai está se recuperando aos poucos e cada vez mais apresenta melhoras. E a beca? Apesar de não ser minha, virou uma das minhas roupas favoritas.”

 

No final das contas, a moda é a maior ferramenta de expressão da nossa história. Mesmo inconscientemente, as nossas roupas marcam todas as fases da nossa vida, seja para nos lembrar das pessoas que nos acompanharam ou lugares que passamos. É nosso maior reflexo.

 

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